quarta-feira, 14 de agosto de 2019

AJUDA: Tamilis na graduação


O Coletivo Adelinas está ajudando na divulgação do pedido da mana Tamilis. Ela está prestes a se formar em Ciências Sociais na UEMS- Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, mas está sem recursos para manter-se nesta reta final. 


Vamos ajudar esta mana preta a terminar a graduação.

Abaixo consta a mensagem da Tamilis e os dados bancários para quem puder ajudá-la.




"Salve galera!

 Meu nome é Tamilis, sou cria de POÁ, extremo leste de São Paulo. Mas atualmente moro em Paranaiba- Mato Grosso do Sul, e estou cursando Ciências Sociais na UEMS- Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul. Vim para cá de mala e cuia com 800 reais no bolso para realizar o meu ingresso na tão sonhada universidade pública. Vim parar tão longe pois minha nota não era boa o suficiente para entrar nas públicas de São Paulo, e o que vem me ajudando a me manter aqui até então são as bolsas de estudo. Nos dois primeiros anos consegui entrar no Programa de bolsas de iniciação a docencia o PIBID, no qual cumpri estagio, recebendo o valor de 400 reais todo mês, para pagar aluguel, alimentação e contas. O programa acabou e fiquei um tempo sem conseguir ser beneficiado por outro edital de bolsas, foi quando compartilhei isso com o coletivo de mulheres negras do qual faço parte o coletivo Adelinas que me ajudaram muito tanto emocionalmente como financeiramente.

 Tive a oportunidade de realizar um projeto de iniciação científica, do qual pude me dedicar afinco, e também do qual me fornecia uma bolsa que me ajudou durante esse um ano de pesquisa. A bolsa encerrou e agora estou sem renda, me inscrevi nos outros editais de auxilio permanência da UEMS, mas a única bolsa que consegui foi uma no valor de 150 reais que mal paga minha alimentação.
 Sou artesã, e estou buscando realizar alguns trabalhos artesanais para conseguir grana, mas creio que não será o suficiente, o lucro que tenho geralmente com artesanatos não é muito alto. As pessoas não valorizam muito.

 Sou estudante, trabalhadora, preta e suburbana e compreendo o que é manter uma vida com menos de um salário mínimo pra pagar aluguel; alimentação e higiene; agua e luz. Consegui o acesso a universidade pública, mas venho passando diariamente pelos desafios da permanência. As bolsas que na real servem como incentivo a pesquisa sempre foram usadas por mim como auxilio permanência, e isso demonstra a precarização da educação que cada vez mais vem se demonstrando no país.
 Faltam pouco mais que 3 meses para eu conseguir me formar e é por isso que trago isso a público, como um pedido de ajuda, pois, não quero encerrar esse ciclo agora, já que falta tão pouco.
Vou deixar a minha conta, e qualquer valor depositado já vai ajudar muito. E para quem não puder ajudar financeiramente, se puder compartilhar já vai ser incrível, ficarei muito grata.
 

Obrigada!"


Dados bancários:
Tamilis Gabrielly de Souza
Banco do Brasil
Ag: 0484-7
C. Corrente: 34.560-1
CPF 440397828-28

domingo, 4 de agosto de 2019

NOTA DE REPÚDIO


Nós, do Coletivo Autônomo de Mulheres Pretas – ADELINAS –, da grande São Paulo, formado em julho de 2015 por mulheres pretas e por elas representado por meio de seus fenótipos negros: tonalidades de pele, texturas de cabelos, diferentes corpos, experiências comuns de resistências e opressões históricas, somadas às diversidades, às subjetividades e às  especificidades do que é ser Mulher Negra no sistema capitalista, vimos a público REPUDIAR as declarações da filósofa Djamila Ribeiro nos vídeos publicados em seu stories, nas redes sociais, no dia 25 de maio de 2019,  em flagrante ultraje contra a ativista de direitos humanos, Dina Alves, denominando-a de “dinossauro”, de “coisa”, de “pessoa problemática”. 

As narrativas expostas nos vídeos se orientam por um discurso que associa a mulher negra à figura de um animal – no caso, um dinossauro – , relacionado a elementos patologizantes e sustentado na ideia de que a mulher não apresenta condições para ser considerada humana, mas a uma coisa ou à histórica criminalização da mulher como “histérica e problemática”. Os vídeos propagados e a maledicente comparação a um animal alastram representações negativas associadas ao corpo negro. Os movimentos feministas, especialmente o movimento de mulheres negras, dedicou muita vida e sangue na luta contra a animalização e objetificação das mulheres negras. Afinal, essa é uma incansável luta que começou com nossas ancestrais. Além disso, o movimento de mulheres negras luta para ressignificar os estereótipos a partir da autodefinição e valorização, positivando, inclusive, o adjetivo “negras”, que passou a identificar as mulheres negras a um sujeito político e com uma agenda própria.

  muito as mulheres negras são as principais vítimas do sistema capitalista e do Estado. Vivemos num contexto em que somos intensamente golpeadas, afrontadas, ultrajadas pelo racismo, pelo sexismo, pelo patriarcado. Em sociedades racializadas e hierarquizadas por classe, raça, gênero e sexualidade não surpreende assistirmos aos discursos com olhar coisificado sobre nossos corpos, o que contribui para a manutenção de relações hegemônicas e da naturalização das violências: doméstica, obstétrica, da cultura do estupro, das alarmantes taxas de feminicídio (acentuadas pela vitória de Jair Bolsonaro), da criminalização da maternidade negra, das dinâmicas de punição, estigmatização, assassinatos provocados por milícias e agentes de segurança pública e pela existência de um padrão generalizado de vulnerabilidades no acesso a saúde, habitação, mercado de trabalho, terra,  bens materiais e culturais.

A construção de estereótipos relacionados a animais faz parte de práticas históricas de representações de identidades para simplificar, anular e desumanizar nossa condição de seres humanos. A desumanização abre portas à animalização. Um processo que, sem dúvidas, foi (e é) um instrumento de opressão e dominação de raça visando a manutenção da ordem e dos privilégios das classes dominantes que se perpetuam no poder até hoje. O tráfico transatlântico de escravos tinha como pressuposto transformar negros e negras em coisas, objetos, seres sem alma, animais. Não é de hoje que se comprova os malefícios dessas construções de estereótipos racistas ao longo da nossa história e na formação da nossa identidade e subjetividades. Exemplos não nos faltam: Bertoleza, personagem de Aloizio de Azevedo, comparada a uma anta; os corriqueiros termos pejorativos de “macacas”, a criminalização da maternidade negra com o ditado popular “negra é como coelho: só dá cria”.

Acreditamos no projeto político que une a luta antirracista/anticapitalista. Sabemos que ativistas autônomas e independentes são perseguidas por suas pautas radicais na construção de uma sociedade questionadora de projetos políticos neoliberais e capitalistas. Nossa pauta tem sido a emancipação das mulheres negras a partir delas mesmas. Somos plurais, assim como nossas vivências, dores e sorrisos. Nossa militância é periférica, espaço onde a bala chega mais rápido e aumenta as estatísticas de violências, opressões, desigualdades. Entendemos que o projeto político do feminismo negro se desenha nas mais diversas formas. Logo, as discordâncias políticas constituem o oxigênio do diálogo e do bem viver.

É importante ressaltar que o Coletivo Adelinas nasceu dessas pautas. E é por isso que todas nós nos sentimos atingidas pela disseminação de ódio e de estereótipos criminalizadores e criminalizantes perpetrados contra uma de nossas membras cofundadoras. Reproduzir estereótipos contra mulheres negras é a explícita manifestação de reprodução do racismo, do sexismo, do genocídio contra todas nós que lutamos incansável e tenazmente pelo fim desse ciclo de violência de gênero, raça, sexualidade, classe, território, espacialidade. É dessa forma que declaramos publicamente apoio incondicional à nossa irmã Dina Alves: mulher, preta, advogada, nordestina, retirante que luta contra o terrorismo do Estado e que, desde 2018, tem recebido ameaças de policiais em decorrência de sua luta e exposição na defesa intransigente dos Direitos Humanos das mulheres negras.



#ForaBolsonaro

#ForaMoro

#NãoSomosDinossauros

#AdelinaPresente

#MariellePresente

#SomosmulheresNegrasMerecemosRespeito



Coletivo Adelinas,

Julho de 2019

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Quantas Luanas o seu Feminismo Contempla?

Quantas Luanas o seu Feminismo Contempla?

Texto escrito pela #Adelina Dina Alves 
e que representa o posicionamento das Adelinas-Coletivo Autônomo de Mulheres Pretas

"Forma um blocão por noiz aê

        Mais uma audiência sobre a execução de Luana Barbosa está se aproximando. Peço que colaborem com a rifa e com doações na conta bancária (informações disponíveis no final deste texto).
Aproveito para dizer que estamos cansadas. Falo de mim mesma, e peço licença para dizer do cansaço de algumas outras irmãs que estão na articulação dos movimentos que surgiram após a brutal execução de Luana, as Coletivas "Nenhuma Luana a menos" e "Luana Barbosa". Explico o cansaço  - ou talvez não seja a palavra correta nesse momento ... Confesso que não estou preocupada com as palavras,  minha letra aqui vem do coração - :

    Após o assassinato de Luana, mulheres negras, maioria lésbicas, se articularam e fundaram as organizações políticas Nenhuma Luana a menos e Coletiva Luana Barbosa,  para desenvolvimento de ações politicas e buscas de estratégias discursivas sobre genocídio e lesbocídio das mulheres negras. Temos, nesses anos, desde a execução de Luana, enfrentado os meandros burocráticos da justiça burguesa e se aproximado da família-vítima, além de desenvolver estratégias de sensibilizar parte do que se chama de “esquerda”, sobretudo setores feministas negro. Aqui mora meu cansaço, que não é apenas físico, mas um cansaço sobre expectativas que, no limite, se transformam em frustração.

  Diversas foram as formas para angariar recursos para locação de transportes, comprar alimentação, água, fazer cartazes e tudo mais que é necessário numa organização militante.  Nosso deslocamento é de São Paulo-SP a Ribeirão Preto-SP, e muitas manas tiraram dinheiro do aluguel para a locação do transporte, em uma das idas para a audiência, além de pedidos públicos nas redes sociais. Na última audiência do caso estavam lá duas ativistas. Apenas DUAS. Isso é inaceitável.

   A postura de setores da “esquerda”, de grupos feministas, entre eles pessoas que se dizem porta voz do feminismo negro no Brasil, nos faz pensar e repensar sobre o lugar de fala de cada uma nessa travessia, que, por tantas vezes, é tão pesada e dolorida.

 Entendo mesmo que no sistema capitalista muitas precisam subir. Daí entendo que muitas campanhas como “Ninguém solta a mão de ninguém” e “Uma sobe puxa a outra”, não faz qualquer sentido pra muitas pretas periféricas executadas nas periferias de cidades do Brasil. Entendo também que esse feminismo que se desenha com a re-atualição do sistema capitalista racial só serve mesmo apenas pra alguns subirem e transcender nesse sistema.


     Há um cansaço em perceber como estas mesmas feministas (negras e brancas)  esvaziaram de sentido político a execução de Marielle Franco.Usaram sua morte para auto promoção nas suas carreiras e projeção nacional.


Uma pergunta curiosa a fazer para estas pessoas seria: Porque a execução de Luana Barbosa (tão trágica quanto a de Marielle) não lhes comove?  Será a classe social de Marielle?


Luana e Marielle, duas mulheres negras, lésbicas, mães, desafiaram o estado patriarcal e cisheteronormativo. 

"Suas mortes são dois casos emblemáticos que representam como o sistema de segurança pública no Brasil elege/elegeu o corpo feminino negro como lócus da atuação estatal, ou em outras palavras, como as nações da diáspora negra elegem as mulheres negras como inimigas internas.


   Nos dois casos estão evidentes a prevalência e gravidade da violência racista, de gênero, classista, lesbofóbica e transfóbica no Brasil. Por isso é inaceitável essa seletividade de classe, raça e territorialidade por setores da esquerda."

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COMO AJUDAR:

1. As articulações para angariar fundos são encabeçadas pela coletiva Luana Barbosa, que disponibiliza uma conta para depósito, na modalidade de Doação

Ag: 1449-4
Conta corrente: 0047113-5
Bradesco
CPF: 374.185.078-01
Nome: Fernanda Gomes de Almeida

2.A outra é pensada pela União dos Coletivos Pan-Africanistas (UCPA) e o grupo Nenhuma Luana a Menos, que construíram uma rifa de R$ 5,00 para o sorteio das obras “Lélia Gonzalez: Primavera para as Rosas Negras” e “Beatriz Nascimento: Possibilidades nos dias da destruição”.

- RIFA:
Para participar da Rifa, entre em contato o telefone: (11) 99281 2163
Livros: “Lélia Gonzalez: Primavera para as rosas negras” e “Beatriz Nascimento: Possibilidade nos dias da destruição”
Valor: R$ 5,00
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#FeminismoNegroPeriferico
#ContraOLesbocidioDasMulheresPretas
#ContraOTerrorismoDoEstado
#LuanaVive
#MarielleVive
#Transfeminismo

terça-feira, 8 de maio de 2018

Uma resposta necessária à Manuela D'Ávila

Prezada, Manuela! Permita-me fazer alguns apontamentos sobre seu vídeo veiculado no canal de Youtube, na data do dia 02 de maio, em que você traça seu plano Nacional de Segurança Pública. Estas reflexões são um convite a uma análise mais profunda sobre algumas questões que julgo relevante não só do ponto de vista teórico, mas também por sua urgência política, pois no momento em que escrevo estas reflexões três mães que tiveram seus filhos e filhas executados pela polícia de São Paulo morreram nesse maio cinzento, em menos de uma semana. São elas: Cristiane Aparecida Barbosa e Francelina de Morais, ambas do Movimento Mães em luto, da zona leste e Vera Lúcia dos Santos, uma das fundadoras do Movimento Mães de Maio. Todas elas foram vítimas do terrorismo do estado-racial-penal, seja pelo superencarceramento, seja pela letalidade policial. A urgência política também se dá porque o Brasil desponta como o terceiro país do mundo a encarcerar pessoas, e o segundo país das Américas nessa obcecada corrida pela expansão do sistema penal.
Primeiro: Entendo, sinceramente, que para traçar um Plano Nacional sobre Segurança Pública, num país que se quer democrático, passa por desembaraçar os mitos sobre criminalidade, ordem e segurança pública produzidos pelos discursos estatais.

Segundo: A sua proposta de segurança pública é recheada de contradições. Dentre elas, uma bastante elucidativa. Você afirma que “53% dos presos, foram presos (sic) com menos de 60 gramas” (subentende-se maconha, crack ou cocaína). Pois bem, as estatísticas oficiais apontam a existência de mais de 700 mil presos/presas no Brasil. Cada preso/presa em presídio estadual, ainda segundo cifras oficiais, custa cerca de 2 mil reais por mês aos cofres públicos, e em presídios federais custa cerca de 3 mil reais, mensais. Se existisse uma política de desencarceramento aos presos/presas, teríamos cerca de 350 mil pessoas sendo verdadeiramente incluídas socialmente. Este, um lado da moeda. O outro, teríamos 700 milhões de reais, mensais, para serem investidos na vida da população egressa. Saiba, Manuela, que grande parte dos egressos e egressas do sistema prisional sofrem com as trágicas e irreversíveis consequências da experiência carcerária. As doenças mais comuns, só para exemplificar, são: transtornos de ansiedade, paranoia, dependência química, alterações recorrentes no sono, sintomas de depressão, estresse e traumas diversos, tamanho é o terror do estado penal nas prisões que você quer humanizar. Agora mesmo, o Grupo de Intervenção Rápida – GIR - está tocando o terror na penitenciária de Lucélia, interior de São Paulo. Você está sabendo disso? Pois é, segundo as famílias, os presos estão sendo torturados a cada hora. A rebelião teve como motivação a reivindicação por melhores condições para o cumprimento de penas naquela unidade. Você sequer abordou a importância de fortalecer e rever as Audiências de Custódias. Esta é um projeto do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em parceria com o Ministério da Justiça que objetiva a rápida apresentação do preso/presa a um juiz nos casos de prisão em flagrante. Estima-se que ainda hoje 40% dos presos no Brasil sejam presos/presas provisórios. Muitas das pessoas podem ser consideradas inocentes ou poderiam cumprir penas alternativas ao regime fechado. Ora, a sua proposta não fala em soltura, em liberdade de presos, em desencarceramento, em audiências de custódias como medida importante para a política de desencarcerar estes 53% de presos/presas, com pouquíssimas quantidades de drogas; pelo contrário, insiste na construção de mais presídios. Segundo seu depoimento, “o governo federal tem APENAS cinco presídios federais, 1% dos presos brasileiros”. E você complementa “para auxiliar os estados, nós defendemos a construção de uma Unidade Prisional Federal em cada estado”. Ou seja, mais presídios! Por que não substituir a política de construção e aprisionamento em massa pela política de DESENCARCERAMENTO EM MASSA, ainda que de forma gradual?

Terceiro: Você mencionou que TODOS OS BRASILEIROS são atingidos pela violência. Não considero essa afirmação verdadeira. Uma, porque a própria categoria “brasileiros” é problemática, abstrata, e outra, porque as únicas pessoas atingidas, de forma violenta, pela política de segurança pública, são as pessoas dos territórios racializados (moradores das favelas, comunidades, periferias, dos becos, dos viadutos, em situação de rua, pessoas atingidas por barragens, vítimas de incêndios criminosos em ocupações, indígenas, populações ribeirinhas, lutadores e lutadoras pelo acesso à terra etc). Considere que a explosão das taxas de violências, decorrente da ação truculenta e selvagem da polícia, cresce exponencialmente a cada ano e o grupo, preferencialmente eleito, é o das pessoas pobres e pretas. As banalizadas mortes e lesões corporais gravíssimas por estas ações policiais deixam um rastro de destruição na família da vítima e na comunidade a que pertence. Nunca essa violência estatal chega a um bairro da nobreza. É necessário também considerar que estas dinâmicas punitivistas refletem o modelo de relações raciais do país, e é por isso que não é possível traçar qualquer Plano Nacional de Segurança Pública, sem considerar os pesos dos atributos de raça, classe, gênero, sexualidade e territorialidade como temas CENTRAIS nesse debate.

Quarto: O Rio de Janeiro, território de governantes corruptos e laboratório de intervenções militares históricas, apresentou no ano de 2003, entre janeiro e agosto, a execução de 900 pessoas, vítimas de violência policial. Quase 75% dessas mortes ocorreram em favelas − comunidades predominantes negras. A hipervigilância policial e o superencarceramento em massa de forma desproporcional da população preta, são partes de um emblemático e persistente padrão do racismo antinegro difundido, que permeia a sociedade brasileira. Só pra você ter uma ideia, Manuela, as projeções do IPEA são pessimistas: a renda média nacional da população negra só será equiparada à renda da população branca no ano de 2040. Essa projeção foi calculada bem antes do congelamento dos gastos públicos por vinte anos. Os negros ainda são e cada vez mais se tornam as principais e desproporcionais vítimas de doenças evitáveis, da má nutrição, do desemprego, da infecção por Aids/HIV, da depressão clínica, violência obstétrica, aborto mal sucedido, da esterilização das mulheres e vítimas das reintegrações de posse e desocupações violentas. Por isso que a intervenção militar das favelas, morros e comunidades não é apenas um “equívoco”, como você quer fazer crer. A intervenção militar federal no Rio faz parte de um continnum penal que demarca o lugar da população mais pobre, mais preta, mais periférica, mais oprimida e mais massacrada nos lixões, camburões e prisões desse país. Não à toa, são as principais ocupantes de prédios e morros que desabam – só pra citar o mais recente (misterioso) incêndio do edifício Wilton Paes de Almeida, no Centro de São Paulo, que vitimizou diversas famílias, as quais estão até o momento abandonadas à própria sorte em frente à igreja dos Homens Pretos, no largo Payssandu.

Quinto: não me senti convencida com o seu vídeo, em que você explica, passo a passo, sobre segurança pública, tema tão falado, refalado e discutido por tanta gente. Considero, em demasia, problemático. As polícias e a guarda civil, que você chama de “nossas”, pertence apenas a burguesia. Esta, que faz parte da classe dominante branca. As polícias apenas servem pra proteger a propriedade privada desse grupo social que tem o privilégio da vida e se alimenta do sangue da maioria explorada e criminalizada. Permita-me, igualmente dizer que sua proposta, isto é, a proposta do PCdoB, tem muita similitude com as propostas de Alckmin ou até mesmo Bolsonaro para a segurança pública. Por isso mesmo, uma proposta claramente de direita, com nuances fascistas. Ou seja, aprimorar a polícia para matar e prender exaustivamente, na mesma linha do atual superencarceramento em massa existente no sistema prisional brasileiro. Se, para vocês, a segurança pública é tida como tarefa prioritária, isso subentende que investimentos em educação se colocam em plano secundário, tal como faz Alckmin em São Paulo na educação pública. Fato se comprova pelo fechamento de salas de aula, períodos e escolas, enquanto a estatística de construção de presídios cresce, a cada ano, em todo o interior paulista.

Sexto: Manuela, as mulheres negras são as principais vítimas de violência sexual cometida pela polícia que você chama de sua. Elas são violentadas no interior do cárcere, e suas famílias, da mesma forma, são violentadas durante a visitação, nas intermináveis filas, nas revistas vexatórias, seja com scanner ou não. E você sabe o que explicaria a prisão desproporcional de mulheres negras no sistema de justiça penal? São mulheres criminalizadas na vida cotidiana e empurradas para alternativas de sobrevivência que em muitos casos tomam a forma de participação no microtráfico de drogas ou em crimes contra o patrimônio. Como não problematizar a casta privilegiada que confina estas mulheres aos depósitos prisionais? A resposta é investimento na construção de mais prisões? Sabia que São Paulo é, de longe, o estado com a maior população carcerária do país e o líder no encarceramento feminino? Pois é. Entre os anos 2003 e 2012 o estado registrou um boom em seu sistema prisional, com a construção de novos presídios, aliada a uma política de encarceramento em massa que resultou na prisão de 103.059 pessoas. Apesar da promulgação da Lei Federal que proíbe a revista vexatória, as mulheres que vão periodicamente às penitenciárias consequentemente são submetidas à revista íntima, ou seja, o desnudamento, o agachamento e, não raras vezes, a manipulação de genitais. Ou seja, “aqui a lei não pegou” como me disse uma senhora de 70 anos de idade, na fila da Penitenciária de Itaí, interior de São Paulo. 

Sétimo: Manuela, cadê a proposta de desmilitarização da polícia que você não falou? Essa é uma pauta da rua, dos movimentos sociais de base, das MÃES que gritam roucas nas portas de IMLs. Elas estão em toda parte e cada vez mais cresce esse movimento. Os seus “valorosos guardas municipais” também matam, estupram, punem. Lembra os cinco jovens da Zona Leste? Os familiares fizeram peregrinações entre secretarias de Direitos Humanos e IMLs, naquele fatídico dia, sob gestão de Haddad. Precisamos falar da desmilitarização da vida das pessoas faveladas que são as mais pobres e mais pretas nesse país.

Oitavo: O debate da segurança pública passa, prioritariamente, pela pauta do racismo estrutural que organiza as relações sociais no sistema de justiça criminal. Passa pela análise do atributo “raça” como categoria analítica que tem impacto na produção de mortes e que estrutura a economia da punição no Brasil. Por isso, o debate racial tem que ser CENTRAL, não um apêndice como você propõe. Sua polícia é a que mais mata, prende, estupra e tortura no mundo. Cadê a discussão/problematização sobre o lucro na economia da punição no Brasil? Não somos um ponto fora da curva no que diz respeito ao “complexo industrial prisional global”. Somos um país da diáspora negra e como tal elegeu um “inimigo” interno a ser combatido com a indústria militar bélica.
Nono: Saiba que algumas organizações sociais, não-governamentais e ativistas independentes, têm se dedicado, nos últimos tempos, a discutir a pauta pelo desencarceramento, abolicionismo penal e pensar alternativas de mediações de conflitos. A proposta das 16 medidas e a agenda pelo desencarceramento são apenas propostas para pensarmos uma nova política ou plano de segurança pública. E isso passa, Manuela, desde uma análise do impacto financeiro e orçamentário de alterações legislativas de cunho penal, a abertura para um importante caminho de discussão sobre abolicionismo penal, no país do genocídio antinegro provocado pela branquitude. 

Décimo: Por isso, considero sua proposta um tanto descomprometida com a realidade da maioria da população, precipitada, porque sequer ouviu os movimentos que discutem incansavelmente; e racista por secundarizar a temática racial prioritária nesse plano. Criar mais prisões, pra quem? O “território” prisional é um lugar eminentemente negro. Se você for a uma penitenciária ou fundação CASA verá que os corpos jogados nestes espaços, que são verdadeiros navios negreiros, tem cor, sexo, classe, gênero e território demarcado. Do Ceará a São Paulo, as mulheres transexuais e lésbicas são vítimas mortais da sua polícia e do cárcere que você quer humanizar. Não precisamos de cárceres mais humanos. Não lute por mais prisão. Não feitichize o sofrimento de pessoas que choram e pedem por justiça nesse transatlântico em movimento secular. 

Expostos os dez apontamentos, permita-me, igualmente, concluir que em ano de eleições, a ganância aumenta atrás dos votos, tão necessários para a manutenção da dominação de classe. E vocês, do PCdoB, que estão atuando nesse palco, há anos, sabem que o voto nada muda. Só a revolução social, da qual vocês se abdicaram, poderá superar esse modelo de sociedade e, consequentemente, mudar a situação de barbárie a que o capitalismo racial submete as classes trabalhadoras do mundo todo.
Por fim, você e o PCdoB chegam às raias do cinismo. Diz a sua falação “Precisamos ter a firmeza para que nenhum policial se corrompa”, como se o policial fosse um anjo que perdeu a pureza e pode ser regenerado. Em suma, a sua proposta coloca o policial como vítima e não como braço genocida, a serviço do aparato repressivo do Estado e das elites das classes dominantes.

Manuela, você tem consciência do (estrago) que faz? 

Sabe muito bem que sua proposta tem objetivo eleitoreiro. Como adepta fervorosa da democracia (burguesa), você oferece com uma das mãos e toma com a outra. Sorrateiramente, na parte inicial da sua falação, você se coloca na defesa das mulheres, dos negros, das transexuais., etc., preparando o terreno para propor o reaparelhamento da instituição da polícia. Você é uma enganadora populista atrás de votos das populações atingidas pelo terrorismo do estado, bem como dos votos da classe média, ambos focados num interesse comum, o da segurança pública, verdadeiro filé em tempos de ‘desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente e de humanidade desorganizada”. E (pasmem), atrás dos votos dos milicos civis e militares!

Saudações abolicionistas,
Dina Alves.

Advogada. Atriz. Membra co-fundadora do Coletivo autônomo de mulheres pretas - ADELINAS. Membra do grupo de estudos “Interseccionalidades” entre Brasil/Colômbia. Autora da pesquisa “Rés negras, Juízes brancos”: Uma análise interseccional de classe, raça e gênero na distribuição da punição em São Paulo. Doutoranda em Ciências Sociais pela PUC/SP, na área de Antropologia.


quinta-feira, 12 de abril de 2018

#tbt Papo Adelina: 8M - Para além das rosas e das flores



O Coletivo ADELINAS compôs a programação em comemoração aos 10 Anos da Odisséia das Flores no espaço São Mateus em Movimento, realizando no dia 17/03/2018 o Papo Adelina: 8M - Para além das rosas e das flores, abordando questões sobre o feminismo negro, o genocídio das mulheres pretas (considerando o recente assassinato da vereadora carioca Marielle Franco) e a representatividade do 08/03 para a mulher preta, fazendo referência à comemoração do dia Internacional da mulher e às atividades realizadas em todo o país no mês de março.



Esta atividade do Coletivo ADELINAS é parte de uma agenda política anual de exercitar o trabalho de base com a prática do feminismo negro e periférico. Visamos fortalecer nossos vínculos ideológicos, afetivos e espirituais na quebrada, conformando uma irmandade, espaço de associação e intimidade, a partir do qual buscamos construir uma militância coerente com nossas histórias de vidas e possibilidades de atuação política, na busca por uma nova forma de ser Mulher Negra como seres transcendentais e protagonistas das nossas próprias histórias.

Assim somos e aqui estamos! Presente!






“Ela morreu!

Lutando e por lutar!

Marielle venceu! E continuou vencendo, pois a sua morte e deu visibilidade às causas que ela defendia.

Ela vence! Pois a cada instante que uma mulher preta se levanta, Marielle está presente!”
   By: Lívia Magalhães
 

Se você não pôde comparecer, confira na nossa fanpage do Facebook no endereço eletrônico https://www.facebook.com/Coletivoadelinas/ as fotos que foram capturadas pelos fotógrafos Namary Romão Antunes e André Ferreira.

#tbt
#MariellePresente!
#AdelinasPresente!
#10AnosOdisseiaDasFlores
#ContraoGenocídioDasMulheresNegras
#VidasNegrasImportam
#NãoVamosNosCalar
#8M

quinta-feira, 15 de março de 2018

Órfãos de Mães Pretas - Marielle Franco


Para Luyara Santos
Para nós, os órfãos de Mães Pretas

“... Quem são essas mulheres negras que estão na favela?
Seus filhos, suas perdas, suas lutas, seus trabalhos?…”
Marielle Franco

    

 Foi uma quarta-feira pesada em todos os cantos do Brasil!
    Violência, repressão, dor, feridas e feridos o dia todo.
    E durante a noite, a notícia de que a vereadora Marielle Franco e o motorista que a acompanhava, Anderson Pedro Gomes, foram mortos a tiros dentro de um carro, na região central do Rio de Janeiro.
Mulher, negra, mãe, lésbica, feminista e socióloga, a morte de Marielle (vereadora pelo Psol, eleita com 46.502 votos, sendo a quinta mais votada na cidade) deixou todos indignados e com a certeza que ser Negro no Brasil é estar exposto a todas as formas de violência - das mais simples às mais complexas. 
Marielle não se encaixa a uma única violência. Ela é vitima do racismo, feminicídio, lesbocídio e genocídio periférico, promovido por uma sociedade cisheteronormativa, mas não podemos e não seremos mais um número para as estatísticas. Possuímos história!. Nossos mortos serão nomeados para que ninguém se esqueça das Claudias, Dandaras, Luanas, Katiannes e Marielles.
 Estamos na linha dos tiros, não nos querem lá. Não querem que tenhamos voz, porque não querem lidar com as denúncias que faremos contra todas as opressões que vivemos. Não aceitam a força de uma Mulher.
    Ah! Mulher Preta! 
    São muito mais que nove meses, porque mãe preta não descansa nunca. Cuidamos dos nossos filhos, curamos as nossas dores, lutamos contra as estatísticas, apanhamos do Estado racista, cisheteronormativo, genocida, especista, psicofóbico, capacitista e violento. Aguentamos muito. Aguentamos tudo.
Sobrevivemos por nós e principalmente por nossos filhos. Cansamos de gritar no silêncio, estamos nos formando, nos fortalecendo e batendo de frente, porque o Estado não matará mais os nossos filhos!
    Somos mulheres africanas em diáspora, cultivando a ancestralidade e conduzindo vidas. Nós, damos a vida.
    Marielle estará sempre presente, não só por sua trajetória de luta na Maré, pela defesa da Mulher Periférica, da causa LGBTT, do Povo Preto, pelo caminho trilhado de defesa dos direitos humanos ou por sua carreira política e o mais importante: por sua política de Base. Será presente porque transformaremos nossa indignação e dor em luta. Como ela fez. Como ela faria. 
    O sorriso da felicidade guerreira de Marielle estará eternamente no coração de quem luta por uma sociedade sem racismo e sem opressões. O sangue de Marielle corre em nossos corpos.
Hoje, em pelo menos 10 estados brasileiros acontecerá atos em memória de Marielle Franco. Em cada canto, ecoará - hoje e sempre -  a voz, a força e a luta desta ativista. Não nos calarão jamais!
    Prestamos a nossa solidariedade à toda família de Marielle e de Anderson. 
Nós por nós! Lutaremos até que todas sejamos livres! 

E quem somos nós?
SOMOS TODOS MARIELLE, SOMOS TODOS AS MÃES PRETAS DESTE BRASIL.



Construíram e assinam esta nota:

Coletivo Kianda - Mães Pretas
Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio
Saia da Roda - Coletivo de Mulheres da Cultura Popular
Adelinas - Coletivo Autônomo de Mulheres Pretas
Acampamento de Feminismo Interseccional
Don't Touch My Hair 
Projeto Meninos e Meninas de Rua 
NANA - Maternidade Preta
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Roda Terapêutica das Pretas 
Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua
Coletiva Luana Barbosa
Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da pessoa humana - CONDEPE
Ouvidoria Geral da Defensoria Pública do Estado de São Paulo
Rede Quilombação
Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Sapopemba
Núcleo de Direito à Cidade da USP
Sarau A Voz do Povo
Sacolão das Artes
Fórum em Defesa da Vida
Serviço de Assessoria Jurídica Universitária (SAJU- USP)
Eloá Rodrigues -  Secretária de igualdade Racial- GDN - RJ
Denise Taynáh Santos França - Coordenadora do Projeto “Por Sua Causa” - Criola - RJ
Projeto 111 
Neon Cunha, mulher negra, ameríndia e transgênera, participante da MMNSP


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Por Dina Alves

Vestir a "Globeleza" deixa Nu o mito da democracia racial.

Quando os carros alegóricos entraram na avenida os confetes, sprays, brilhos e ritmos das marchinhas do carnaval se harmonizaram com os passos da “mulata” global que sambava ao som da marchinha que a homenageia: "Na tela da TV, no meio desse povo, a gente vai se ver na Globo".
A vinheta da “Mulata Globeleza” foi criada na década de 1990, por Hans Donner, designer alemão e funcionário da emissora. A modelo, dançarina e cantora, Valeria Valenssa foi símbolo carnavalesco até 2004, seguida pelas outras dançarinas e passistas Giane Carvalho, Aline Prado, Nayara Justino e a atual Erika Moura.

Diferente das vinhetas anteriores, a organização Globo modificou a vinheta e a personagem símbolo do carnaval, no ano passado (2017). A justificativa para a mudança foi a de que “o Brasil é um país rico em muitas culturas e, portanto, a vinheta vai representar todas as culturas e essa riqueza” (Jornal Meio&mensagem, 2017). A modelo não aparece nua, com pinturas ou paetês coloridas, como era de tradição nos últimos 20 anos de exibição da vinheta do carnaval. Desta vez, aparece vestida de várias caracterizações, representando vários tipos de culturas carnavalescas: fantasia tradicional, frevo, baiana, maracatu, boi bumbá, porta-bandeira...e por aí vai. 

A “bondosa” decisão de “vestir” a “Globeleza” com a roupa da diversidade cultural só reforça e faz a manutenção do mito da democracia racial, constantemente enfatizado pela emissora e muito combatido pelo Movimento Negro, desde o seu nascimento. Se é verdade que o carnaval no Brasil é veiculado como a maior festa da diversidade cultural do mundo, a permanência de uma mulher negra como figura simbólica do mito carnavalesco, desmistifica esta falácia.

O nascimento do conceito “mulata”, na era colonial, surgiu do próprio racismo e do machismo incrustados nas relações sociais da época. Dada a pouca presença de mulheres brancas no país e a existência de negras escravizadas com atributos físicos que não agradavam aos brancos europeus. As mulatas surgiram como um novo elemento, que não se comprometeria com as categorias “negativas” associadas à figura das escravizadas. Foi criada, assim, uma mulher aparentemente livre da discriminação racial, que trazia consigo apenas características sexuais, ganhando um novo papel social em relação às negras de pele mais escura.

Ao longo da história a sua figura, como uma representação mítica aparentemente construída com o propósito de negar o racismo no país, passou a ser o símbolo nacional do mito da democracia racial brasileira. Intelectuais como Gilberto Freyre, autor da obra “Casa Grande e Senzala” de 1933, demonstrou obsessão na busca por uma identidade nacional “ideal” para o país que se distanciasse da herança física africana e indígena. Esta obra retrata a convivência supostamente harmoniosa entre os diferentes grupos étnicos e a ideia de que a configuração de nossa identidade territorial estaria marcada pela mestiçagem entre negros, indígenas e brancos. Esta corrente ideológica deu suporte teórico e legitimidade científica à miscigenação, transformando o mito da democracia racial em uma das formas de se manter a ideologia dominante nas relações de dominação econômica e racial.

O conceito de “mulata” vem dessa ideologia de branqueamento da sociedade e do uso da figura da mulher negra como objeto sexual de entretenimento do homem branco português. A sua figura é reduzida à reprodução sexual, ao uso da sua sexualidade enquanto característica exótica e objeto de estupro. O histórico ditado popular extraído da obra Freyreana “branca para casar, mulata para furnicar e a negra para trabalhar”, retrata bem o lugar das mulheres na sociedade racista-patriarcal-colonial. A figura da mulata, dotada de atributos físicos determinantes: seios fartos das amas de leite, o que garantiria potência para a amamentação; lábios grossos, boca carnuda, cintura fina, quadril avantajado, desenhado como aquela que serve sexualmente ao senhor português em todas as instâncias da vida privada e pública. Estes estereótipos físicos foram cristalizados social e historicamente e, partes desse corpo feminino negro, foram discursivizados na matriz escravocrata que sustentou/sustenta o olhar hegemônico oficial e que continua inalterado em muitos dos seus traços até os dias atuais.

Se na sociedade racista colonial, as categorias de raça, gênero, classe social e sexualidade estruturaram a ideologia de dominação, a imagem da figura da 'mulata globeleza”, reatualiza, cotidianamente, essa ordem colonial com a hiperssexualização e permissividade do seu corpo. É por isso que “vestir” a “mulata globeleza” com a roupa da suposta diversidade cultural nos orienta para a velha ideia do país tropical, ausente de racismo, que celebra todas as raças, todas as culturas e onde todos e todas dialogam harmoniosamente, ou seja, realimenta o mito da democracia racial e, consequentemente, a denotação de uma ideologia de branqueamento no país composto por 54% de negros e negras (IBGE, 2014).

O lugar ocupado pela “mulata globeleza” sambando na vinheta e pelas mulheres negras da classe trabalhadora, as quais madrugam limpando o chão da avenida reflete essa marca da matriz escravocrata de dominação de raça, gênero, classe e sexualidade inscrita nos corpos negros femininos. Com roupa ou sem roupa, negação do racismo e dominação racial caminham de mãos dadas no país do carnaval.
A figura da mulata vestida só serve para reatualizar o mito da democracia racial. Isso é desvendado quando se percebe quem tem acesso a maior festa “popular” do mundo. Quando se desnuda os bastidores da festa é revelado os corpos que costuram, cortam, desenham, pintam, lavam e guardam as fantasias, os adereços e os ornamentos carnavalescos.

Enquanto a vinheta global, tenta, descaradamente, propagar o mito da democracia racial através de personagens representativos da diversidade cultural, é perpetuada as desigualdades sociais históricas nas relações raciais no Brasil. Não é de hoje que a emissora trabalha, cotidianamente, para a desumanização, objetificação, hiperssexualização e criminalização dos corpos das mulheres negras. É só lembrar algumas personagens que fizeram sucesso no imaginário popular: Adelaide, do programa Zorra Total; a “divertida” empregada Zezé, de Avenida Brasil; a empregada cuidadora Zilda, da novela Laços de Família; a empregada Cida, da novela Viver a Vida; a Tia Anastácia, cozinheira do programa Sítio do Pica Pau Amarelo; a personagem, Preta de Souza, que remete ao nome da novela “Da cor do pecado” e a Bombom, do programa Planeta Xuxa. Estes são apenas alguns exemplos dos lugares ocupados pelas mulheres negras no espaço midiático e o desserviço e desinformação que a emissora presta à população brasileira, com construção de narrativas sobre a condição feminina negra.  Derradeiro exemplo foi o lamentável episódio em que a atriz Sharon Menezes exibiu corpos de mulheres negras no concurso público, no programa do Fantástico, para a escolha da Globeleza, no ano de 2013.
A persistente existência da representação da “mulata Globeleza” e a aparente positividade da diversidade cultural que ela traz, mascara o racismo que estrutura e organiza as relações sociais e reafirma que este racismo contemporâneo brasileiro é produto não só de relações coloniais cuja estrutura de privilegiados/subalternos ainda não foi rompida por completo, mas faz parte de um sistema complexo de relações que é reatualizado cotidianamente pelo mito da democracia racial.

As mulheres negras são testemunhas vivas da exclusão, da subordinação e da tentativa sistemática de desumanização dos seus corpos. O duplo caráter da sua condição biológica – racial e sexual – faz com elas sejam as mulheres mais oprimidas e exploradas no sistema capitalista patriarcal-racial. O feminismo negro, coerente consigo mesmo, tem papel crucial na luta popular emancipatória das mulheres e dos homens negros brasileiros, ante o genocídio secular em curso.
A luta continua!

Dina Alves é Membra efetiva do Coletivo Autônomo de Mulheres Pretas - ADELINAS. 
Advogada. Atriz e candidata ao PhD em ciências Sociais  com pesquisas nas áreas de gênero, raça, punição e feminismo negro no Brasil.